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Fluxos Esquecidos: Uma Exploração Artística dos Rios Urbanos de Lisboa

Olá a todos! Pedro Leal por aqui. Nos últimos meses, mergulhei num projeto de pesquisa artística que me tem fascinado profundamente: a exploração dos rios e ribeiras que correm, muitas vezes ocultos, sob as nossas cidades. Mais especificamente, tenho focado a minha atenção nos cursos de água da área metropolitana de Lisboa, aqueles que foram canalizados, soterrados ou simplesmente esquecidos no processo de urbanização.

O ponto de partida para este trabalho foi uma constatação simples: vivemos rodeados por uma complexa rede hidrográfica que, por força da construção e do desenvolvimento urbano, se tornou praticamente invisível. Pensemos no Rio Seco em Alcântara, ou nas ribeiras que desaguam no Tejo entre Belém e a Baixa – a maioria de nós nem sequer sabe que existem, muito menos onde correm. O objetivo deste projeto não é apenas mapear esses cursos d'água, mas sim usar a arte como uma ferramenta para os trazer de volta à consciência coletiva, para que possamos repensar a nossa relação com a paisagem natural que nos rodeia.

Desvendando o Subterrâneo: Metodologias e Descobertas Iniciais

A pesquisa começou com um levantamento histórico, consultando mapas antigos da Câmara Municipal de Lisboa e arquivos da Sociedade Geográfica. Cruzei essa informação com relatos orais de moradores mais antigos, que ainda se lembram de certas ribeiras à vista antes das obras de saneamento e urbanização dos anos 60 e 70. O contraste entre os mapas do século XVIII, que mostram uma Lisboa salpicada de linhas de água, e os mapas atuais é gritante. É como se a cidade tivesse engolido os seus próprios veios.

Uma das fases mais interessantes tem sido a documentação fotográfica. Não se trata de fotografar a água em si, que raramente é visível, mas sim os vestígios da sua presença. Uma inclinação inesperada numa rua, um muro de contenção invulgar, o tipo de vegetação que cresce em certas zonas mais húmidas – tudo isto pode ser um indicador da passagem de um antigo curso de água. Recentemente, durante uma caminhada exploratória perto do Vale de Chelas, descobri uma pequena galeria de escoamento que, segundo a documentação, corresponde a um trecho da antiga Ribeira de Chelas, agora completamente subterrânea. A sensação de estar a pé sobre um rio ‘morto’ é bastante singular.

A Arte como Ponte: Da Observação à Expressão

A partir desta coleta de dados, a segunda fase do projeto entra em campo: a criação artística. O foco aqui não é a representação literal, mas a interpretação e a evocação. Estou a experimentar com instalações sonoras que recriam o murmúrio da água em locais onde ela não é mais visível, usando gravações de outros rios e a manipulação digital. A ideia é criar uma experiência imersiva que force o observador a imaginar o que está por baixo dos seus pés.

Também estou a desenvolver uma série de mapas sobrepostos, onde as linhas de água históricas são desenhadas sobre os mapas modernos, mas com uma transparência que as faz parecer fantasmas. Estes mapas não são apenas informativos; são obras de arte que procuram evidenciar a tensão entre o presente construído e o passado natural. Pretendo que estas peças levem as pessoas a questionar: 'Será que esta rua segue o curso de uma ribeira?' ou 'Onde estará a água que dava vida a este vale?'

Implicações e Próximos Passos

Este projeto não é apenas sobre arte; é sobre a nossa relação com o ambiente e a história urbana. Ao trazer à luz estes fluxos esquecidos, espero fomentar uma maior consciência sobre a importância da água na paisagem e no desenvolvimento das cidades. Talvez nos faça repensar a forma como construímos e como nos relacionamos com os recursos naturais.

Os próximos passos incluem a criação de uma exposição itinerante, começando provavelmente em galerias mais pequenas no centro de Lisboa nos próximos 6-8 meses, com workshops participativos onde as pessoas poderão criar os seus próprios 'mapas fantasmas' ou contribuir com memórias sobre estes rios invisíveis. Acredito que a arte tem o poder de nos reconectar, de nos fazer ver o invisível e de questionar o que damos como certo. Estes rios subterrâneos são mais do que meras tubagens; são parte da alma da cidade, e é tempo de lhes darmos a devida atenção.

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